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Encontros que despertam misericórdia

15 de março de 2015

O Evangelho de Lucas, mais do que qualquer outro evangelho, mostra o rosto misericordioso de Deus, nas ações de Jesus. Revela o carinho e a acolhida para com os mais fracos como ponto forte durante sua missão. Misericórdia é a recomendação expressa de Jesus (cf. Lc 6,38), que se comove com a dor da viúva de Naim (cf. Lc 7,11-17), perdoa a pecadora que lhe unge os pés (cf. Lc 7,36-50) e entra na casa do publicano Zaqueu (Lc 19,1-10).
A viúva de Naim (Lc 7,11-17). Este perícope é narrada somente por Lucas. Jesus consola e ajuda uma viúva estrangeira (de Naim) que perde seu filho único. Provavelmente Lucas tem como referência dois episódios parecidos do Antigo Testamento; o primeiro é o caso de Elias que ressuscita o filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17,17-24); o segundo é o caso de Eliseu que ressuscita o filho da sumita (cf. 2Rs 4,17-37). Esses relatos eram bem conhecidos nas comunidades, mesmo das diásporas. Relatos de ressurreição não passavam em branco; chamavam a atenção. Tomando como base o Antigo Testamento, Lucas mostra a superioridade de Jesus ante a ação de Elias e Eliseu. Jesus age movido pela misericórdia; ele tem autoridade em nome de Deus para agir e nem precisa pedir a Deus para ressuscitar a alguém, ou seja, vai logo agindo.
O relato mostra magistralmente dois cortejos no mesmo espaço, na porta da cidade de Naim. Por um lado, Jesus chegando com os discípulos e todos que o acompanhavam em festa. Por outro, uma mãe que segue o féretro do filho, acompanhada de uma multidão sofrida e triste. Jesus, logo que viu a mulher viúva chorando, dá-lhe atenção e vai ao seu encontro, mostrando para seus seguidores (discípulos) a imediata participação na dor da mulher.
Ao final do encontro entre Jesus e a mãe viúva que chorava seu filho morto, uma reação marcante da multidão acontece: todos reconheceram a ação salvífica de Deus e, por isso, glorificavam ao Deus misericordioso por sua ação. E, no final, exclamaram todos: “um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16b). Em outras palavras: Deus salva em Cristo; ele cumpre sua promessa em Jesus (cf. o segundo artigo) Por meio de Jesus, Deus intervém para salvar o seu povo. “Esta é a visita definitiva e excepcional de Deus; a ressurreição dos mortos é sinal decisivo para quem o sabe acolher” (FABRIS; MAGGIONI, 1992, p.84, v. 2).
A pecadora que unge Jesus (Lc 7,36-50). Este texto aparece nos quatro Evangelhos, mas somente Lucas diz que essa mulher é uma pecadora, exatamente para realçar a misericórdia divina, tema integrante e chave de sua teologia.
Nesta narrativa se vê a fineza do evangelista que introduz um tema difícil para seus interlocutores: a acolhida dos gentios na comunidade, representados pela pecadora, Lucas coloca uma mulher como protagonista da cena e, através dela, apresenta o processo de conversão, necessário para a adesão à comunidade cristã.
A mulher chama a atenção de todos os convidados com seus gestos inusitados. Age de forma escandalosa ao dirigir-se a um hóspede, derramando perfume e chorando feito uma tresloucada. Para os fariseus, conhecedores da Lei, a mulher conhecidamente impura por sua vida de pecado não poderia se aproximar de alguém. Escandaliza ainda mais que o gesto da mulher a atitude de Jesus que aceita aquela homenagem inesperada e fica calado, comprometendo assim “a sua reputação de homem de Deus, de profeta reconhecido pelo povo” (FABRIS; MAGGIONI, 1992, p.88, v. 2).
A maneira de agir da mulher leva a um diálogo entre Jesus e Simão. Jesus apresenta um caso e logo interroga sobre o amor. Simão, como fariseu, responde muito bem. Nesta conversa, Lucas quer mostrar o gesto de acolhimento da mulher e o tamanho amor que ela demonstra por Jesus. Perante a acolhida que a pecadora anônima oferece ao convidado de honra, fica revelada a falta de acolhida do fariseu “justo”, assim como fica explicitada a misericórdia de Jesus.
Através deste relato, Lucas instruiu explicitamente sua comunidade sobre a acolhida aos pagãos que deve ser feita na maior misericórdia. É claro para Lucas como para os demais evangelistas que Jesus não veio para condenar (cf. Mt 18,11; Jo 3,17; 8,15-6; 12,47-48) como faziam os fariseus, mas para salvar e devolver a dignidade à pessoa.
Zaqueu (Lc 19,1-10). Este episódio é exclusivo de Lucas. A conversão de Zaqueu revela a ação misericordiosa de Deus, sempre pronto a perdoar e a acolher. Lucas descreve com certo humor esse encontro entre Zaqueu e Jesus. O homem pequeno tem pressa e corre na frente da multidão no intuito de achar lugar favorável para ver Jesus. Mesmo aparentemente a atitude inicial parecendo sua, Lucas insiste que quem toma a iniciativa é Jesus. É ele quem vê Zaqueu na árvore, chama-o e se autoconvida para ir à casa dele. Em seguida, o Terceiro Evangelista mostra a rápida resposta de Zaqueu que recebeu Jesus com alegria em sua casa.
Perante Jesus, Zaqueu resolve mudar radicalmente. O fruto do encontro é a conversão, que significa para um rico uma nova forma de usar seus bens e uma nova maneira de agir, dentro da sociedade, buscando a justiça. Depois da experiência do encontro com Jesus, Zaqueu se compromete a restituir quatro vezes mais. É o sinal de conversão para o qual Jesus responde que entrou a salvação na casa daquele publicano (cf. 19,9). “A justiça de Deus tomou os traços do rosto humano de Jesus tornou-se busca salvífica daquilo que estava perdido” (FABRIS; MAGGIONI, 1992, p.183, v. 2). Mais uma vez a multidão se surpreende com a forma de agir de Jesus e tal encontro entre Jesus e um publicano provoca murmurações.
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