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Pecado X Santidade

16 de março de 2015

Tal artigo é fruto de uma reflexão que surgiu durante a semana teológica que ocorreu durante os dias 22 a 26 de setembro/2014 promovido pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP), com o tema: Teologia um desafio contemporâneo.
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  Pecado e santidade são conceitos tradicionais da fé cristã, que formam uma relação dialética entre si e que ainda nos dias de hoje continuam a desenvolver discussões sobre ambos os conceitos. Pensando na condição humana é preciso ter em mente que todos nós experimentamos o pecado e a santidade no nosso cotidiano. Experimentamos fortemente em nossa vida a condição de pecado e de santidade, diante dessa dualidade é necessário indicar um caminho que aponte um sentindo que seja claro para nos situarmos no mundo, dando respostas para a difícil compreensão que ainda nos dias atuais, emergem acerca da resposta que homens e mulheres esperam da teologia e da antropologia perante as noções de pecado e santidade.
  Todos nós procuramos um sentindo pleno para nossa vida, estamos à procura de uma grande razão para nossa própria existência no mundo. A história da salvação nos demostra que o ser humano só se realiza por meio da relação com Deus, com o outro e com o mundo. Essa realização do ser humano com o transcendente, com o outro e com o mundo se concretiza no âmbito da liberdade.
A liberdade deve ser construída e é construída na relação com o outro. Aqui, deve-se levar em conta o conceito de evasão muito usado pelo filósofo Emmanuel Levinas, que entende que é preciso enxergar o outro como possibilidade de alteridade. Há uma interação entre liberdade e alteridade, nossa liberdade tornou-se doentia, é necessário refundar a nossa liberdade, pois “a liberdade não tem fundamento senão na responsabilidade. Mas esse fundamento é sem fundamento, é relação ética, é sacralidade, é religião” [1].
A teologia é desafiada hoje a responder ao homem sobre a natureza do pecado e da santidade. Segundo Adolphe Gesche, falar de pecado e santidade é falar em duas sínteses entre liberdade e alteridade. Segundo o Vaticano II, santidade refere-se à união perfeita com Cristo, já o Catecismo da Igreja Católica no número 1739 diz acerca da liberdade e do pecado: “a liberdade do homem é finita e falível” e continua no número 1742 citando Gálatas 5,1 “é para liberdade que Cristo nos libertou”.
  A condição de liberdade do homem está intimamente ligada à sua dignidade concedida por Deus no ato da criação e por isso, tanto o homem como a sua liberdade é finita e por sua condição de ser transcendente o homem está aberto para relacionar-se com Deus.
  Pecado é a possível relação entre o exercício da liberdade em contraponto ao exercício da alteridade, o pecado leva muitas vezes ao exercício de um anti-humanismo que gera uma rejeição de Deus, do outro, e do mundo. O pecado é a negação da santidade, quando o homem não aceita Deus, o outro, e o mundo, enfim, é a total rejeição do exercício da alteridade.
  A rejeição da alteridade leva a criar um falso senhorio do próprio homem no aspecto macro e microcosmo que o induz à morte, que se caracteriza pela troca de lugares, o homem que deseja estar no lugar de Deus[2].
  O pecado em si produz no homem e na sociedade marcas profundas, fazendo com que o homem crie uma sociedade, principalmente, nos dias de hoje fundada na cultura do descartável, onde muitos são considerados resíduos, sobras, ou seja, o próprio homem que rejeita a si mesmo e o outro como seu semelhante.
  O ser humano oscila entre uma aproximação a Deus e a tentação de tornar-se autônomo desde o inicio da história da própria humanidade, nunca estando satisfeito e por sentir-se insatisfeito afasta-se de Deus, caindo no pecado.
  O pecado é uma questão de Deus, ou seja, Deus não está indiferente ao mal e ao pecado e se preocupa com a condição humana, por isso, envia seu filho[3]. Mesmo diante do pecado o ser humano tende à recuperação de seus atos. A dualidade humana pecado e santidade podem ser compreendidas pela resposta que Deus concede ao homem, pois o próprio Deus vem em socorro do homem com sua graça (Cf. 2Cor 5,17-18).
  Tanto o pecado como a santidade exigem do homem uma demanda grande de energia. Para pecar e ser santo é necessário gastar bastante energia, pois o ser humano como ser de liberdade é fundamental que ele pratique a resiliência. Visto que o ser humano como ser de pecado, pela graça de Deus pode se recuperar da ação das práticas de pecado, a realidade de pecado nunca deve levar o homem ao desespero, pois é preciso encarar tal realidade com novas possibilidades de reerguimento.
  Todos os homens sejam eles crentes ou não experimentam o pecado e o desejo de vida em plenitude; a diferença está na visão de pecado e de santidade que os crentes possuem que se difere da dos não crentes, os crentes têm consciência da realidade de pecado, porém, sabem que não estão sós, pois Deus concede seu perdão e seu amor àqueles que o amam.
  Sem a graça divina o homem não possui a capacidade de evitar o pecado, pois é um ser fragilizado, mas pela graça de Deus em Jesus Cristo o homem é libertado. Já dizia Bento XVI ao citar Tomás de Aquino: “Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina”[4].
  O mundo do mal, do pecado aparentemente demostra ser superior nos dias atuais ou até mesmo ao longo da história da humanidade, porém a graça de Deus ligada e dialogando com a liberdade humana é capaz de fazer com que o homem crie uma relação qualitativamente nova, portanto, o nosso mundo apesar de ser marcado pelo pecado convive com o bem, com a alegria, com a santidade.
Trigo e joio estão na mesma plantação já dizia o próprio Cristo[5], mas tudo fica integrado, pois Deus se preocupa com o homem e o ajuda a extirpar o joio do meio do trigo. A graça que Deus concede ao homem tem por objetivo criar qualitativamente neste mundo o seu reino. A realidade de pecado não deve deixar o homem pessimista. Diante do pecado o homem não deve se desesperar, ao contrário, deve aprender com suas falhas, pois elas também podem ser meios de libertação e deve enfrenta-las como possibilidades de libertação. Já dizia Paulo: “Pois, quando sou fraco, então é que sou forte”[6].
Uma reflexão teológica sobre o pecado só terá efeito se a reflexão tratar daquilo de que fomos libertados pela graça de Deus. Portanto, o pecado é uma realidade dura e crua, e o cristão sabe que foi libertado do pecado e essa libertação se concretiza na medida em que o próprio cristão adere a se identificar com o Cristo.
O cristão só percebe que é pecador mediante a graça que se revelou por meio da libertação que Cristo concedeu no sacrifício da cruz. Sem essa libertação feita na cruz, nem a consciência de pecado o homem teria. Portanto, o Espírito Santo recorda ao homem seus pecados, não para o desespero, mas para que por meios deles, se construa um caminho à santidade.
Por:







REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BÍBLIA: A Bíblia de Jerusalém. 9. ed. São Paulo: Paulinas, 2000.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola, 1993.
MELO, Nélio Vieira de. A ética da alteridade em Emmanuel Levinas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, Coleção filosofia.



[1] MELO, 2003, p.231.
[2] Cf. Gn 3,5.
[3]  Cf. Jo 3,16.
[4] Cf. Disponível em: < http://noticias.cancaonova.com/catequese-de-bento-xvi-sobre-sao-tomas-de-aquino-parte-2/>.
[5] Cf. Mt 13, 24-30.
[6] Cf. 2Cor 12,10.
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