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VIDA CONSAGRADA E AFETIVIDADE

28 de novembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,
Saudações no Cristo Crucificado!
Com alegria venho em poucas linhas apresentar, fruto de reflexões e leituras, considerações a cerca da Vida Consagrada e a afetividade que a deve envolver.
Etimologicamente a palavra AFETIVIDADE vem do latim AFFECTUS: "TOCADO", e poderia ser definida como a relação que estabelecemos com o mundo, a peculiaridade como somos "tocados" pela realidade que nos cerca; nossa experiência e reação diante do mundo. É a capacidade de sentir-se atraído e tocado por alguém ou por alguma coisa, mais do que tentação, é  condição primeira para ser capaz de captar os toques de Deus e vibrar com ele.
Por envolver relações torna-se uma realidade muito ampla e abrange todo o contexto da pessoa, interno e externo. Nossos afetos são vínculos que nos ligam a nós mesmos, aos outros, ao ambiente, ao mundo, a Deus.
Sabemos que a consagração abrange toda a pessoa: corpo e alma; e não só a "alma". E é nesta totalidade que a pessoa se realiza e trabalha para a realização do outro. Por isso é importante, além dos cuidados de ordem espiritual e intelectual, que se dê a devida atenção também ao desenvolvimento humano e principalmente à afetividade, pois é ela que possibilita o seguimento radical de Jesus Cristo na dedicação ao Reino. É através dela que a pessoa consagrada coloca à disposição do Reino suas possibilidades pessoais de amar e de servir.
A consagração religiosa, vista como um "não", como renúncia, ascese, solidão, é hoje resgatada como um "sim" à vida, à fecundidade, à amizade, à sexualidade, ao amor.
O religioso é alguém marcado pelo masculino e a religiosa é alguém marcada pelo feminino. Não são seres "neutros", que negam sua sexualidade, aparentando neutralidade e esterilidade, como no passado se apregoou como modelo para a Vida Consagrada.
A renúncia a constituir uma família não significa renúncia ao amor, mas uma atitude em vista de maior disponibilidade para um amor não exclusivo nem limitado. É um amor que se caracteriza por uma doação sem reservas, para além de antipatias e simpatias; um amor vivido com todo nosso potencial de vida a serviço da vida, tanto na comunidade como no serviço apostólico: um amor universal que atinja todo o criado, mas com características e expressões muito concretas. É a este amor que Deus convida os consagrados a viverem e promoverem na relação com as pessoas.
É o amor de Deus, o sentir-se amado por Deus que dá sentido à própria vida. Este amor se expressa na forma afetiva, pois Deus se faz sentir na pessoa consagrada de várias formas durante sua vida. Esta experiência de Deus vai inspirando, fortalecendo e despertando sentimentos os mais variados: é o Deus de amor que fascina e encanta que seduz e inspira temor e tremor. Emoções de amor e medo, sentimentos filiais e fraternos estão presentes na experiência religiosa. É na oração pessoal e comunitária que a pessoa consagrada vai experimentando, de maneira afetiva esta presença de Deus. Esta experiência, por sua vez, se torna fonte de integração para a afetividade consagrada.
A convivência comunitária harmoniosa é uma conquista, é algo em que sempre se é aprendiz. Para atingir uma comunhão comunitária é preciso um trabalho sério de construção de pessoas, onde cada um se descobre e descobre o outro. A experiência e aceitação de si são a base para uma pessoa consagrada ser vibrante com a vida e ser, também, expressão da gratuidade e do dom. Também vai dar condições para criar laços afetivos e se comunicar com o outro em profundidade, estabelecendo relações interpessoais. Esta relação com o outro se expressa de forma afetivamente madura através do trabalho e ganha sentido e integração na experiência de Deus.
O homem não pode caminhar solitário. Ele tem necessidade de um clima de calor familiar comunitário, onde se busca a unidade, respeitando a diversidade de pessoas, onde haja acolhimento, estima, valorização da pessoa - de seus dons e modo de ser - onde ele sinta que pode participar da vida e atividade da comunidade e que sua colaboração é importante e valorizada.
Numa comunidade religiosa existe um carisma e ideal congregacional como ponto de unidade comunitária. Se as pessoas forem o centro e o valor mais importante, e forem respeitadas as diferenças individuais de cada um, o clima comunitário será de uma unidade na diversidade. Importante também é que os afetos possam circular de maneira madura e criativa e se cultive sadiamente a "maternagem ou paternagem" espirituais e um verdadeiro amor de amizade.
A maternagem/paternagem espiritual é algo que faz parte da vida do religioso, pois este é chamado a gerar pessoas para a vida, cuidando, amando e promovendo o outro. É uma dimensão essencial à maturidade afetiva humana, e esta somente acontece quando os outros tipos de amor foram consolidados.
O amor de amizade é um verdadeiro suporte para uma consagração total. No passado a visão era bem outra, mas hoje a própria Igreja vem mostrar que "a capacidade de criar e manter relações pessoais válidas é um sinal de um celibato bem assumido", como reza o documento da Sagrada Consagração para a  Educação Cristã "Orientações Educativas sobre o Celibato Eclesiástico" (1974-76). Vemos que existe um vínculo estreito entre amizade e comunidade.
A nossa afetividade é, sem dúvida uma riqueza humana e um verdadeiro dom de Deus. Para todas aquelas pessoas, que desejam se consagrar a Deus e assim se realizar como consagrados felizes e capazes de ajudar aos outros, não podemos nem devemos matar a nossa afetividade, mas sim integrá-la. Integrar signífica incorporar harmoniosamente um aspecto ou tendência na unidade do nosso ser, seja ele homem ou mulher.
 A autêntica experiência de Deus nos leva ao amor de nós mesmos. Quanto mais conhecemos a Deus, mais descobrimos que ele nos ama. Quanto mais nos aproximamos da fonte do amor, mais nos tornamos sempre mais dignos de amor. Chegados a este ponto, é possível amar ao próximo. Somente uma pessoa em paz consegue mesma pode amar também o irmão. E o amará precisamente como ama a si mesma. Terá um amor que não está fundamentado nas qualidades e defeitos, mas que vê o valor radicado em seu próprio ser, isto é, não basta não pensar bem, não se trata de fechar os olhos sob aspectos negativos dos outros, nem simples gesto de cortesia.
Por: André Maria C. M. Carvalho, religioso barnabita. 
MOHANA, João - A Vida Afetiva dos que não se Casam; São Paulo, Loyola, 1995.
DOCUMENTO DE APARECIDA – Texto Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – 13 a 31 de maio de 2007.
COMPÊNDIO DO VATICANO II – Constituições, Decretos, Declarações; Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
ALMEIDA, Dalton Barros de - Afetividade e Vida Religiosa; Rio de Janeiro, CRB, 1989.
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