O Papa Francisco concedeu uma entrevista ao jornal italiano Avvenire por
ocasião do encerramento do Jubileu da Misericórdia. Publicada nesta
sexta-feira, 18, a entrevista aborda, além do Jubileu, o tema do ecumenismo.
A Igreja é o Evangelho, não “um caminho de ideias” e um “instrumento”
para afirmá-las, nem um “time de futebol” que busca torcedores. É a obra de
Cristo que leva a servir os pobres, que são a sua carne, disse o Papa
Francisco, que exortou a caminhar junto na via do ecumenismo.
A unidade dos cristãos se faz em três caminhos, indicou Francisco:
caminhar junto com as obras de caridade, rezar junto e reconhecer a confissão
comum e o martírio recebido em nome de Cristo, no chamado “ecumenismo de
sangue”. O Santo Padre fala de um caminho que vem de longe, amadurecido pelo
Concílio Vaticano II e pelo trabalho dos seus predecessores, e que ele não
acelerou nada, simplesmente se deixou guiar pelo Espírito Santo. Ele também
declarou que não lhe tira o sono quem pensa que nos encontros ecumênicos se
deseja “liquidar” a doutrina católica.
Francisco reiterou que a Igreja cresce por atração e não por
proselitismo. E quando prevalece a tentação de construir uma Igreja
“autorreferencial” em vez de olhar para Cristo, surgem contraposições e
divisões. A Igreja não tem luz própria, explicou o Papa, existe somente como
instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus.
Discernir no fluxo da vida
No Concílio, continua o Papa na entrevista, a Igreja sentiu a
responsabilidade de estar no mundo como sinal vivo do amor do Pai, voltando à
fonte da sua natureza, o Evangelho. Isso move o eixo da concepção cristã de um
certo legalismo, que pode ser ideológico, à Pessoa de Deus que se fez
misericórdia na encarnação do Filho. Alguns – disse ao pensar em certas
réplicas à exortação apostólica Amoris laetitia – continuam a
não compreender, ou branco ou preto, mesmo que seja no fluxo da vida que se
deva discernir.
O Jubileu da Misericórdia
Com o Ano Santo da
Misericórdia, que está para terminar, o Papa espera que muitas
pessoas tenham descoberto ser muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor
de Deus e o amor pelo próximo são inseparáveis. “Servir os pobres”, explicou
Francisco, quer dizer servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo.
O Santo Padre disse que não vê os recentes encontros ecumênicos como um
fruto exclusivo do Jubileu, mas foram passos a mais em um caminho iniciado há
muito tempo, há cinquenta anos, quando o espírito do Concílio Vaticano II fez
redescobrir a fraternidade cristã baseada num único Batismo e na mesma fé em
Cristo.
Os encontros ecumênicos
Os encontros e as viagens, assegura, ajudam nessa direção. O Papa
recordou, por exemplo, a viagem a Lesbos com o Patriarca Ecumênico de
Constantinopla, Bartolomeu I, e com o arcebispo de Atenas e de toda a Grécia,
Jerônimo.
Ele também mencionou a profunda sintonia espiritual experimentada no
encontro com o Patriarca Elias na Geórgia e os momentos com os Patriarcas copto
Tawadros e Daniel da Romênia. E vê no Patriarca de Moscou e de toda a Rússia,
Kirill, um “homem de oração”.
Com os irmãos ortodoxos, prossegue, “estamos em caminho, somos irmãos,
nos amamos, nos preocupamos juntos”. No encontro em Lund, com os luteranos, por
ocasião dos 500 anos da Reforma Protestante, o Papa evidenciou que repetiu as
palavras de Jesus: “Sem mim nada podeis fazer”. Segundo Francisco, essa visita
à Suécia foi um passo adiante para fazer compreender o escândalo da divisão,
que é superado com gestos de unidade e de fraternidade.