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Multiplicação dos pães

27 de julho de 2015

Iniciamos neste final de semana a leitura do capítulo sexto do Evangelho de João, que começa com a multiplicação dos pães, e depois virá o grande anúncio de Cristo como pão da vida, ou seja, a Eucaristia. Como o Evangelho de Marcos é mais curto neste ano, temos, portanto, esse trecho de João nesta época. É uma oportunidade de aprofundarmos o sentido da partilha, do alimento e da Eucaristia. Serão domingos em que esse tema retornará e nos ajudará a vivenciar ainda mais a nossa vida como cristãos hoje.
Este é o 17º Domingo do Tempo Comum: a primeira leitura e o Evangelho (2Rs 4,42-44 e Jo 6,1-15) têm como tema central a providência de Deus. Em 2Rs 4,42-44, lê-se a multiplicação dos pães levada a cabo na época do profeta Eliseu, multiplicação esta que é figura e prenúncio daquela outra que foi realizada uns oito séculos mais tarde por Jesus e que se lê no Evangelho (Jo 6,1-15). Um homem apresenta-se ao profeta levando consigo “vinte pães de cevada” e recebe a ordem de distribuí-los à sua gente: cem homens. O servo responde, dizendo que tal provisão é insuficiente, mas Eliseu repete a ordem em nome de Deus: “dá ao povo para que coma; pois assim diz o Senhor: ‘comerão e ainda sobrará’”. (2Rs 4, 43).
O tema do pão na liturgia de hoje: ele aparece claramente na primeira leitura e no Evangelho e, de modo implícito, está presente também no salmo. Na tradição bíblica, o pão recorda duas coisas importantíssimas. Lembra-nos, primeiramente, que não somos autossuficientes, não possuímos a vida de modo absoluto: devemos sempre renová-la, lutar por ela. O homem não se basta a si próprio; precisa do pão de cada dia. E aqui, um segundo importante aspecto: o homem não pode, sozinho, prover-se de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Todos nós necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. "O que tens tu, ó homem, que não tenhas recebido? E, se recebeste, do que, então, te glorias"?
O milagre repete-se, mas de uma maneira mais imponente, nos verdes montes da Galileia, quando Jesus se vê rodeado de uma grande multidão que O procurava (Jo 6,5). Jesus provê as necessidades das multidões que O acompanhavam para ouvir a Sua palavra: cinco pães e dois peixes saciam uns cinco mil. Há sobras – doze cestos – para mostrar que Deus não é avaro em prover as necessidades de Suas criaturas. Reza o Salmo: “Vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. (Sl 144 (145), 16).
Significativa a sobra dos doze cestos. O novo Povo de Deus, nascido do mistério pascal de Cristo, será alimentado por Jesus multiplicado nos Doze Apóstolos que participam da multiplicação dos pães. Mais importante ainda do que a multiplicação dos pães é o seu simbolismo. Para saciar a fome da multidão faminta, Jesus quer multiplicar-se nos seus Apóstolos, nos seus discípulos, em sua Igreja.
Se o milagre de Eliseu é figura da multiplicação dos pães levada a cabo por Cristo, esta é preparação e figura de um milagre mais estrondoso: a Eucaristia. Não está por acaso a descrição dos gestos do Senhor: “tomou os pães, deus graças e distribuiu-os aos que estavam sentados…” (Jo 6,11). Ela antecipa, quase à letra, os gestos e as palavras da instituição da Eucaristia. Depois de ter saciado tão copiosamente a fome dos corpos, Jesus também proverá, de maneira divina e inefável, a da alma. Alimentados por um único pão, o Corpo do Senhor, os fiéis formam um só corpo, o Corpo Místico de Cristo. Esta realidade é o alicerce do dever da caridade e da solidariedade cristã de que fala São Paulo em Ef 4,1-6, ao exortar os fiéis a “caminhardes de acordo com a vocação que recebestes; com toda humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor”. (Ef 4,1).
Jesus, ao multiplicar os pães, apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência – sim, porque não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver! Dá-nos Jesus a vida física, a vida saudável, mas dá-nos, mais que tudo, a razão verdadeira de viver uma vida que valha a pena. Mas, continuando a leitura, iremos ver que João, em vez de falar da Eucaristia na última ceia como os Evangelhos sinóticos, diz que ela irá aprofundar justamente o significado de sua vida (corpo e sangue) entregue para alimento de todos nós.
O mandato de recolher os pedaços que sobram, ensina que os bens materiais, por serem dons de Deus, não se devem desperdiçar, mas hão de ser usados com espírito de pobreza. Neste sentido, explica o Beato Paulo VI que “depois de ter alimentado com liberalidade a multidão, o Senhor recomenda aos seus discípulos que recolham o que sobrou para que nada se perca. Que formosa lição de economia, no sentido mais nobre e mais pleno da palavra, para a nossa época, dominada pelo esbanjamento! Além disso, leva consigo a condenação de toda uma concepção da sociedade em que até o próprio consumo tende a converter-se no próprio bem, desprezando os que se veem necessitados e em detrimento, em última análise, dos que julgam ser seus próprios beneficiários, incapazes já de perceber que o homem é chamado a um destino mais alto”. (Discurso aos participantes na Conferência Mundial da Alimentação, 09 de novembro de 1974). Como não ver aqui também a exortação do Papa Francisco sobre a questão da fome no mundo e também as questões levantadas no documento “Laudato si’”?
Vivendo intensamente esse Mistério, nos tornamos realmente membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. Cumprem-se em nós, de modo real, as palavras do Apóstolo na segunda leitura deste domingo (Ef 4, 1-6): "Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos". Eis, caríssimos! Que o bendito Pão do céu, neste sinal tão pobre e humilde do pão e do vinho eucarísticos, nos faça compreender e acolher a constante presença do Senhor entre nós e nos dê a graça de vivermos de verdade a vida de Igreja, sendo um sinal seu no meio do mundo. Amém!
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte: cnbb.org.br



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