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Deus e o homem: caráter antropológico-sacramental da vida cristã

8 de junho de 2015


Deus e o homem: caráter antropológico-sacramental da vida cristã.
Deus se revela ao mundo movido pelo desejo de conduzir a humanidade à sua plenitude e guiado por um ato de amor livre de qualquer coação. No entanto, Sua onipotência excede as capacidades cognitivas do ser humano, por isso o Criador com o afã de realizar uma comunicação fecunda com a humanidade, recorre aos signos sacramentais e elementos existentes na nossa realidade, como por exemplo, a água, para ensinar que a existência humana não encontra seu sentido último em si mesmo, mas sim n’Aquele que lhe concedeu o dom da vida.
Existe uma dicotomia que gira ao redor da simbologia da água: para muitas culturas a mesma é símbolo de morte (caos), entretanto, para outras é também signo de vida. No contexto litúrgico batismal ela é sinônimo de vida, purificação, santificação. Porém, é de suma importância resaltar que tais atributos se dão a causa da ação do Espírito Santo na matéria, pois os elementos existentes na criação não possuem poder salvífico por suas próprias forças, ao contrario, sua eficácia está solidificada na ação redentora de Deus nos mesmos. Em base ao aludido, é possível afirmar que na ação epiclética[1] há um movimento descendente – Deus que enche o homem com Sua graça – y ascendente - a resposta livre do homem. Nessa sinergia[2], encontro entre Deus e homem, revela-se outra vez o caráter existencial dos sacramentos e do culto ao Criador; o ser humano na sua totalidade, corpo, alma e espírito, é exortado a responder existencialmente ao chamado d’Aquele que lhe deu o dom da vida. Nesse âmbito, é pertinente ser conscientes de que o caráter existencial dos sacramentos e do culto reside no insistente preceito de que o ser humano rende culto ao Transcendente com sua vida. Com isso, nossos atos se tornam “dignos” de ser considerados culto a Deus quando, modelados à maneira do Crucificado vivo, levam-nos a buscar uma vida santa.
A invocação do Espírito Santo sobre os signos denota uma realidade consagratoria; é certo que toda a criação é obra de Deus, mas a partir do gesto epiclético a água passa a um nível de pertencia “especial”. A forma e a substância da matéria não mudam, pois continuam tendo os mesmos atributos de antes: moléculas de oxigênio, hidrogênio. O que é alterado vai mais além do que os nossos sentidos podem reter. O sacerdote pede ao Pai Celestial que envie Seu Espírito para que a causa da ação transformadora do mesmo, transforme a matéria em signo eficaz de salvação para a humanidade. Tal suplica sucede por meio do movimento Trinitário: o sacerdote roga a Deus Pai que pela graça de seu Filho envie o Espírito Santo sobre os dons.
Os frutos dos signos carregam a finalidade de fazer que o ser humano experimente em Cristo um novo nascimento, levando-o gradualmente a tomar consciência de sua dignidade: ser imagem e semelhança de seu Criador. Somos imagem no sentido de que Deus se faz presente em nós – somos imagens que representa o Imaginado e nossa capacidade de amar confirma tal veredito. Em outras palavras, antagonicamente às culturas pagãs que afirmam que seus deuses habitam nas imagens –estátuas- que eles construíam, o Deus de Jesus Cristo demonstra que o ser humano, sendo Seu representante, é imagem Sua – Ele habita no seu povo. A humanidade não é igual a Ele, não é uma deidade omnipotente, não é em si mesma, ao contrario, é um outro diferente, semelhante a Aquele que lhe concedeu a vida, e por meio de atos virtuosos pode sublinhar e reafirmar tal similitude em um caminho gradual de santificação. Sua dignidade radica no fato de que, em quanto criatura, é criada a imagem e semelhança de seu Artífice e como tal é exortada a ser administradora da criação, ou seja, senhor da mesma (cf. Gn 1, 26). O sentido autêntico desse senhorio não está plasmado ao estilo dos parâmetros culturais atuais – marcado pela opressão, egoísmo, destruição-, mas sim ao estilo de Deus: encharcado de cuidado, movido por um amor misericordioso.
O contexto litúrgico batismal está vinculado ao mistério de Cristo e, por isso, é um acontecimento, sem sombra de dúvida, Trinitário. O mesmo Deus que liberou os israelitas da escravidão no Egito (cf. Ex 3, 7-9), é o Pai que possibilita que Sua Palavra se faça carne e após um processo de encarnação eficaz (cf. Jn 1, 1-5. 11), concede a possibilidade de que Ele habitasse em meio a um povo específico, aprendesse em um seio familiar a se expressar de acordo aos parâmetros culturais locais, para que desde uma comunidade específica, pudesse conduzir toda a humanidade a um processo gradual de plenitude.  Esta mesma Palavra encarnada, depois de manter e conduzir Sua mensagem ao extremo, morre na cruz culminando sua doação-redentora universal. Ele não deixa a comunidade sozinha, pois envia o Espírito Santo para marcar uma nova forma de presença. A novidade dessa presença pneumatologica é marcada por um caráter sacramental, por exemplo: Cristo agora se faz presente na Eucaristia, na comunidade congregada, na Palavra, no Sacerdote que preside a administração dos sacramentos. Por conseguinte, os discípulos, movidos pelo Espírito Santo, são chamados a levar ao mundo a Cristo instruindo (ensinando) e sendo testemunhas vivas de sua mensagem.
É de suma importância ressaltar que o Deus cristão que entra na historia da humanidade é uno e trino; são três pessoas distintas que possuem uma mesma natureza, são unidade no amor. Isto é, o Pai, o Filho, o Espírito Santo são um só Deus, porém não são uma única pessoa. O Pai sem origem gera o Filho fora do tempo e do espaço, o Filho recebe todo seu ser e condição filial do Pai – esta relação denota uma vida íntima que pressupõe a preexistência da Palavra (cf. Jn 1, 1-2), o Espírito Santo procedendo da Primeira e da Segunda pessoa trinitária (“filioque” – o credo de Nicea), é portador do amor do Pai com o Filho[3]. Por tanto, são três pessoas distintas em uma mesma natureza[4] que acompanham ao homem no seu caminhar. As três Pessoas Trinitárias sempre atuam trinitariamente e nunca sozinhas, cada uma das Pessoas deve receber a mesma adoração e glória. Adorar ao Deus Uno e Trino é render culto a três pessoas diferentes, que possuem uma única natureza e igualdade de dignidade[5].
A missão de dar continuidade à obra da aliança selada na cruz, carrega o mandato de Jesus que vincula anúncio e batismo (Mc 16, 15-16). Pela pregação a comunidade alimenta seu ser com os ensinamentos de vida eterna, por meio do batismo o neófito além de se tornar membro efetivo da comunidade, recebe a graça de ser filho de Deus. Tal filiação se dá no sentido de que recebendo o sacramento adere a Deus livremente. O batismo nos faz filhos de Deus na medida em que estamos dispostos a Lhe acolher como Pai. A diferença está na disposição pessoal do homem, pois este tem a possibilidade de aceitar ou recusar esta graça, no entanto, Deus sempre está disposto a concedê-la a quem a deseje. Nesse sentido há uma diferença entre receber e acolher a graça. Pelo batismo somos inseridos no mistério Pascual de Cristo, morremos com Ele, somos sepultados com Ele e ressuscitados com Ele (cf. SC 6).  

[1] Entende-se por epíclesis a invocação do Espírito Santo sobre os signos que serão consagrados: a água no caso do Batismo, o pão e o vinho no contexto Eucarístico, o óleo do crisma para a Crismação e o óleo dos enfermos no âmbito da Unção dos Enfermos.  O seja, o ministro qualificado suplica ao Pai celestial que envie seu Espírito aos elementos a fim de que estes sejam instrumentos de sua graça por intermédio da Igreja.
[2] Jean Corbon em seu livro titulado em espanhol Liturgia Fontal, explica que a “sinergia” significa uma ação conjunta ou encontro de energias, afirmando que este termo alude à novidade da união de Deus com o homem em Jesus. Para extrair mais detalhes sobre o conceito Cf CORBON J. Liturgia Fontal pág. 26. Madrid Ed. Palabra, 2001.
[3] BREUNING W, Trinidad en: (BEINERT, Wolfgang; Diccionario de teología dogmática, Herder, Barcelona, 1990, p. 723, 724).
[4] Ou seja, três pessoas diferentes: Pai, Filho e Espírito S. e uma mesma natureza: Divina.
[5] Misal Romano, 2000 p.1048.
Escrito por:

Referencia:
C* CONCILIO VATICANO II, Sacrosanctum Concilium, San Pablo, Bogotá  2006.

B* BIBLIA DE JERUSALÉN. Nueva edición revisada y aumentada. Desclée de Brower, 1998.

* BEINERT, Wolfgang, Diccionario de teología dogmática, Herder, Barcelona 1990.

* Misal Romano, Chile, 2000.





















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