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O milagre “sempre” vem

17 de março de 2014

“Você, que traz em si a imagem Daquele que é a nossa vida e se alimenta da sua carne, lembre-se de que deve ser generosa e que Jesus Crucificado sempre foi generoso com todos vocês. Justamente por causa disso, como é que nós, que os amamos como a nós mesmos, poderíamos deixar de ajudá-los?”
(Santo Antonio Maria Zaccaria 1.06.07*)

O milagre “sempre” vem
A paternidade de Deus é perfeita. Movido por um amor colossal, com a firme vontade de nos levar a caminhar rumo à vida eterna, Ele enche nossa vida de bens materiais e espirituais.
Em sua trajetória terrena, o ser humano algumas vezes encontra momentos de “bonança” e outros de deserto. No entanto, é muito importante ressaltar que em ambas situações, necessita da graça de Deus para viver. Nos momentos de tranquilidade precisa do seu Criador para viver com maturidade cada segundo, buscando aproximar-se cada vez mais a seu Artífice, sem esquecer que todas as graças são presentes que provem Dele, que o faz experimentar um pouco do que será o gozo da vida celestial.  Nas ocasiões de dificuldades, é de suma importância não esquecer que o ser humano necessita de Deus, pois sem a inspiração Divina, não conseguirá atravessar a “poça de lama” sem se afogar. O crescimento gradual na experiência de fé, comporta a necessidade de não esquecer nunca que o Divino Mestre é a estrela que nos indica o caminho a seguir.
Muitos, conduzidos por sua cegueira espiritual, dizem: “Eu não escuto a Deus!” ou “Deus se esqueceu de mim”! Estas exclamações podem ser confrontadas com algumas interrogações: Em que momento de sua vida você parou para escutá-lo? Ou “Quais respostas você buscava, a que realmente necessitava ou só a que queria ouvir?” Deus está disposto a nos ajudar, em todo momento nos abre portas, contudo nosso egocentrismo, adjacente a nossa cegueira espiritual, turba e opaca nossa capacidade de ler os sinais de Deus em nossa história. Sempre que um coração quebrantado clama o nome de Jesus, Ele se coloca o mais perto possível. Mas, não o faz com o afã de construir uma relação instrumentalista, comercial, senão com o anelo de construir uma relação impregnada de um amor proexistente (que vive em prol dos demais). Deus não é o mordomo da casa que aparece ao som de uma sineta para satisfazer nossos caprichos. Para iluminar o que se foi mencionado anteriormente faço alusão ao terceiro sermão de Santo Antônio Maria Zaccaria: Deus é muito mais do que uma babá ou que um professor, pai e mãe (SAMZ 2.03.04). Mesmo assim, Ele se mostra tão amoroso, como filho, pai e mãe e sempre está com você; e se você se separa dele, Ele o procura, o chama e sempre o convida (SAMZ 2.02.05).
Não é o objetivo principal de nossa reflexão fazer um tradado teológico sobre o significado do milagre como ação de Deus no mundo, no entanto, para iluminar o caminho que estamos traçando aqui, faremos uma alusão sucinta sobre o que o mesmo significa: Em 1R 18,37 a intervenção de Yahvé mostra que Ele é o Deus de Israel e, portanto, no coração deste povo não há espaço para Baal deus dos pagãos. Em 2R 4,8-37 Eliseo cura o filho da sunamita demonstrando que Deus é o autor da vida e, portanto, tem poder sobre ela. No Salmo 74,15 no meio das lamentações trás o saqueio do templo, o autor faz menção aos prodígios de Deus no êxodo com o qual aponta o fato de que aquele povo não caminhava sozinho, era o próprio Deus quem o ajudava a superar os momentos de dificuldades em seu processo de libertação (Ex 14,15ss). É de suma importância resaltar que Moises, Elias e Eliseo são apresentados como “instrumentos” que Deus utiliza para realizar Seus prodígios.    
    Mateus e Lucas apresentam os milagres como sinais da chegada do Reino de Deus. É o Criador que se “envolve” nas problemáticas da criação, demonstrando que não é indiferente ao seu sofrimento, é o dedo de Deus entrando no tempo (Mt 12,28; Lc 11,20). Isso, no fundo, é uma exortação a uma mudança de vida (Jn 8,11), é um convite a acolher na fé, a boa nova (Mc 5,14). Em síntese, se entendemos o milagre como ação de Deus no mundo, no qual Deus, como doador de todas as graças é a causa primaria e a criatura, como “instrumento”, é a causa secundária, é possível afirmar que tal ação é expressão da vontade providente de um Deus uno e trino, que opera movido pelo seu amor, que se revela ao ser humano como uma comunidade de amor, comunicação e doação.    
Deus quando age o faz trinitariamente, o seja, nenhuma das pessoas da Trindade procede separadamente. Quando Cristo cura o faz em nome do Pai e através do Espírito Santo.    Na consagração eucarística, os dons se transformam em Corpo e Sangue de Jesus porque Deus Pai envia o seu Espírito. Somos constantemente convidados a estar em sintonia com a Trindade, a fazer que a entrega, o amor, o diálogo a comunhão sejam fatores presentes em nossas vidas. Desde este ângulo é possível entender a Eucaristia como um constante convite a viver em comunhão com Deus e, consequentemente, com os seres humanos (1Co 11,17-34). Tais elementos devem marcar nossa relação com o mundo e com Deus.
O milagre sempre vem, porém muitas vezes não se manifesta da maneira que desejamos. Deus consegue ver mais longe, seu olhar não está guiado por um sentimentalismo cego, mas sim por um amor incondicional que nos presenteia não meramente as coisas que queremos, senão as coisas que realmente necessitamos.  Em outras palavras, muitas vezes nossas orações são movidas por emoções passageiras, e não percebemos que nossos pedidos seriam, em um futuro distante ou próximo, pedra de tropeço no “caminho da nossa existência”.  O verdadeiro pai não é aquele que sempre diz sim a seus filhos. O verdadeiro pai não é aquele que faz a vontade de seus filhos sem analisar as consequências.  O verdadeiro pai é aquele que, quando necessário, tem a coragem de dizer NÃO. O verdadeiro pai, é aquele que ao escutar os pedidos de seus filhos, avalia a situação antes de tomar uma decisão. Assim é Deus: em sua infinita sabedoria, nos escuta e nos concede as graças na justa medida.    
Visto que a autêntica paternidade é aquela que, fazendo-se presente, atua com solicitude e sensatez, pode-se concluir que a paternidade de Deus é perfeita. Ele sempre escuta nossas súplicas. Ele, por mais que a cegueira espiritual não nos deixe perceber, sempre sacia nossas reais necessidades. Por isso, não devemos temer, não devemos permitir que a desesperação arrebate nossa paz, pois o milagre sempre vem. Deus sabe o dia, o lugar, a data e a medida certa.
Por:








*Santo Antônio Maria Zaccaria 1.06.07: 1=Cartas; 06=6° Carta; 07=7° parágrafo.
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